A Ilusão da Caverna Confortável: Por Que a Insegurança nos Separa da Vida?

Se olharmos para o mundo hoje, há um dado curioso: o número de pessoas sofrendo por medo e insegurança é muito alto. Relatórios globais como o do PNUD apontam que 6 em cada 7 pessoas no mundo sentem-se fundamentalmente inseguras. Quase 85% da humanidade vive hoje sob o manto da apreensão. A psiquiatria apenas dá nomes técnicos a isso, revelando que mais de 350 milhões de indivíduos convivem diariamente com o diagnóstico formal de transtorno de ansiedade.

Mas não precisamos de relatórios. Se formos bem honestos e aprofundarmos a questão, em 100% dos casos nós somos inseguros em algum contexto. E tudo bem que seja assim.

Nenhum problema é um problema real sem que haja prejuízos reais. No entanto, os custos da insegurança na estrutura da nossa vida são, por vezes discretos, outras vezes devastadores.

Como a Insegurança Afeta Nossas Decisões

Eu vejo isso na clínica e também no dia a dia: a insegurança afeta diretamente a forma como nós, seres humanos, tomamos decisões. Sabendo disso, percebemos o quanto nos tornamos maleáveis, dispostos a permanecer a qualquer custo em ambientes que consideramos seguros, evitando com um fervor quase religioso qualquer risco desconhecido.

Nós evitamos desde a troca da marca do café no supermercado até a mudança de rota para o trabalho. Frequentamos os mesmos lugares por medo do novo. E se quisermos ir mais fundo, sim, a insegurança manipula e influencia até mesmo as nossas escolhas coletivas, ditando as direções desde uma pequena família até os rumos políticos de um país. A psicologia econômica estuda isso sob o nome de Viés do Status Quo no Journal of Economic Psychology. No fundo, é apenas o seu instinto de sobrevivência tentando poupar a mente do desconforto da escolha.

O meu objetivo neste artigo não é "chover no molhado" e repetir a velha frase típica de que "precisamos enfrentar os nossos medos" através das clássicas e eficazes teorias de exposição. Também não quero versar sobre escavar as raízes do passado para tentar adivinhar o amanhã ou compreender o seu presente. Este tema me chamou a atenção de uma forma diferente, e quero levar você a olhar para isso comigo, que é: A consciência do porquê estamos ficando tão inseguros.

Em que momento foi que viver deixou de ser um risco?

E se pudermos estender isso, cabe a segunda pergunta:

Quanto de segurança nós realmente precisamos para viver?

A Armadilha da Esquiva Experiencial

Antes de tudo, vamos colocar os devidos pingos nos 'is'. Não se trata de negar os riscos reais. O relatório do PNUD não ignora os perigos concretos do mundo; existem países que vivem em zonas de confronto e inúmeras ameaças reais ao nosso redor. O relatório abriga a ideia de que as complexidades externas influenciam a nossa sensação de insegurança psicológica. Viver guarda suas exigências, e a caminhada muitas vezes é árdua.

No entanto, é preciso questionar: até que ponto a idealização do risco se tornou uma insegurança real? Veja, parece-me que, de uma forma extremamente idealizada, as pessoas entraram em uma caçada infinita pela tal da "zona de conforto", justificando tudo através dessa sensação de ameaça. Isso é complexo, porque estamos falando agora sobre a idealização mental do risco. É nesse caminho que moram transtornos como a TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada), o transtorno de pânico e muitos outros quadros fóbicos correlacionados. A pessoa não está sofrendo pelo que está acontecendo; está sofrendo pelo que a imaginação diz que pode acontecer.

O problema, como a literatura na Clinical Psychology Review nos alerta ao estudar a esquiva experiencial, é que essa zona de conforto que buscamos, rapidamente e de forma muito silenciosa, se torna uma zona de estagnação. E a estagnação nada mais é do que a mesma dor do risco, só que eterna e distribuída em conta-gotas. Você se tranca para não sofrer, e acaba sofrendo por estar trancado.

Precisamos saber quando o alerta do nosso corpo verdadeiramente deve estar ligado em nossas vidas. Precisamos discernir quando o perigo é real. Mas também precisamos aprender novamente a aceitar que o risco existe. E que, ainda assim, nós precisamos aceitar vive-lo.

A realidade é que a vida, na sua matéria densa e na sua essência, só floresce através das intempéries. É no atrito que as coisas ganham forma. Nós sabemos que o caminho é árduo.

Mas desde quando passamos a acreditar que não aguentamos esse caminho? Quando foi que passamos a nos ver tão frageis assim? 

O Homem Contemporâneo e o Retorno às Cavernas

Estamos em um momento da história da humanidade onde praticamente quase tudo está ao alcance das mãos — pelo menos para uma parcela significativa de nós. Então, por que a insegurança aflora de forma tão patológica justamente nas mãos de quem tem tanto conforto disponível? Parece que o medo absorveu as mentes de uma sociedade. E começou através do discernimento. 

Será mesmo que não estamos nos educando, enquanto sociedade, apenas para fugir das intempéries da vida? Será que, com a nossa tecnologia e nossos deliveries, nós apenas modernizamos a forma como voltamos a nos esconder nas cavernas? Pesquisas na Nature Neuroscience sobre o impacto de ambientes superprotegidos mostram o óbvio: a falta de estímulos desafiadores diminui nossa capacidade natural de lidar com o estresse. Se você se tranca em uma redoma rígida, qualquer brisa começa a parecer um furacão. E em pensar, que demoramos milênios para sair das cavernas... e hoje parece que querermos voltar o mais rápido possível?

O que está acontecendo com o homem contemporâneo não é uma fraqueza, é apenas um esquecimento de sua própria natureza biológica. Na biogerontologia, estuda-se o conceito de Estresse Hormético em revistas como Ageing Research Reviews. A ciência descobriu que doses controladas de exposição e desafio são fundamentais para manter a vitalidade de qualquer organismo.

Algumas plantas precisam da luz inclemente do sol para crescer. O homem precisa de vivências. E vivências são, estruturalmente, riscos. Riscos são a própria dinâmica da vida. Eles são a luz e o calor que nos mantêm operantes. É evidente que a intensidade excessiva queima e mata, mas a passividade absoluta e o excesso de proteção nos definham enquanto seres humanos.

Viver sem assumir as intempéries, escondendo-se atrás do escudo da insegurança, pode até parecer seguro. Mas no fundo, a gente sabe: não é nada confortável. O solo lá fora pode parecer incerto, mas é o único lugar onde podemos florescer de verdade. 

Estamos fugindo do risco para salvar as nossas vidas, ou estamos usando a utopia da segurança para deixar de vivê-la?

Referências Bibliográficas:

  • Relatório de Segurança Humana Global (PNUD): Percepção global de insegurança.

  • Clinical Psychology Review: Esquiva experiencial e ansiedade.

  • Nature Neuroscience: Impacto de ambientes superprotegidos.

  • Journal of Economic Psychology: Viés do Status Quo.

  • Ageing Research Reviews: Estresse hormético e vitalidade.

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